Cátia Rodrigues

Os cuidados com os outros

Ao longo dos anos fui-me apercebendo – em conversas que tive o privilégio de ter com mulheres lindas, inteligentes, maravilhosas e bem sucedidas, que sofriam de excesso de peso – como as emoções mal resolvidas têm uma importância tão grande quando se trata de controlar o peso. Aquilo que já tinha aprendido, na teoria, no meu curso de coaching e também nas formações que fiz de Florais de Bach, confirmara-se pela voz de mulheres reais, com histórias reais, com dores reais, com feridas abertas reais…

Sinto-me abençoada por tantas mulheres com desafios em controlar o seu peso me terem escolhido para falarem abertamente comigo sobre problemas como a compulsão alimentar e, em alguns casos até, a forma como conseguiam associar esse distúrbio a um ou vários episódios específicos da sua vida, nomeadamente da sua infância…

Esta introdução serve para demonstrar o quanto as emoções desempenham um papel importante no controlo de peso. E hoje eu gostaria de partilhar um padrão que tenho vindo a observar em muitas mulheres que sofrem de excesso de peso: os cuidados extremos com os outros. Os “outros” podem ser os companheiros, os filhos, os pais idosos ou os irmãos que também estejam a precisar do seu apoio, ou até os seus animais de estimação. Não quero dar a entender que devemos ser egoístas e esquecermo-nos dos outros à nossa volta. Não é disso que se trata. Mas e nós, quem é que cuida de nós? Vejo muitas mulheres assumirem o papel de nutridoras incansáveis das necessidades emocionais dos outros, mesmo que para isso seja necessário manterem as suas próprias necessidades emocionais e outras como que anestesiadas, totalmente relegadas para segundo plano. Agem como se sentissem vivas e úteis quando vivem para os outros ou quando sentem que alguém precisa delas, da sua companhia, conforto ou ajuda no que for necessário.
É mais fácil vivermos os problemas dos outros, do que olharmos para dentro e sentirmos como muitas vezes doem os nossos próprios problemas.

Estas mulheres têm grande dificuldade em dizer não aos outros, em colocar-lhes limites, acabando por sacrificar a sua vontade de detrimento do que os outros querem.

Sinto que há um nível de exigência muito grande em relação ao que estas mulheres dão aos outros à sua volta, negligenciando todavia os cuidados com elas próprias. Muitas destas mulheres cresceram condicionadas a servir os outros à sua volta, a corresponderem às expectativas dos outros, e a acreditarem que é por aquilo que dão aos outros que irão ser reconhecidas ou aprovadas ou valorizadas. Por vezes damos muito aos outros porque achamos que não fazemos o suficiente. Sentimos que não somos suficientemente boas. Alguma vez alguém te fez sentir que não eras suficientemente boa? Que nada do que fizesses podia satisfazer as expetativas dessa pessoa? E tu ficavas triste, porque sentias que não tinhas valor e que para teres valor e de te darem o apreço que precisavas para alimentar a tua alma de criança pequena que precisa de colo, de conforto e de amor, ainda tinhas que te esforçar mais, sacrificar-te, dar mais de ti, arrancar de ti coisas que sabias que não tinhas, para fazeres essa pessoa feliz? Gostava de te dizer que, se te identificaste com alguma destas questões que coloquei, para o teu bem-estar, podes libertar-te já desse peso e dessa responsabilidade. Não podemos fazer todas as pessoas felizes e essa tarefa compete a cada um de nós, primeiramente para nós.

Imagina que vais fazer uma viagem de avião. Antes do avião levantar vôo, quando os assistentes de bordo informam sobre a colocação das máscaras de oxigénio em caso de emergência, em quem devemos colocar primeiro a máscara? É em nós ou nos outros? Nos nossos maridos, filhos, pais, irmãos? Devemos colocar primeiro a máscara em nós, para cuidarmos depois de quem está à nossa volta. Primeiro estamos nós, SEMPRE, depois os outros. Só depois de assegurarmos que estamos bem, podemos cuidar dos outros. E isto não é egoísmo, é amor-próprio. Se as nossas necessidades emocionais não estão preenchidas, damos aos outros a partir de um vazio. E depois, quando os filhos crescerem e saírem do ninho? E os maridos, se decidirem ir embora, como é que fica? E os pais, quando morrerem? O que sobra? E quando já tiveres cuidado de toda a gente, do teu marido, dos teus filhos, quem é que vai cuidar de ti?

1 Comment

  1. Sandra

    Adoorei…e é isto mesmo.se nós não cuidarmos e gostarmos de nós ninguém o fará.

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