Cátia Rodrigues

Barriga “desprogramada”: – o que é e como tratar?

Antes de mais, gostaria de referir que a escolha da fotografia para ilustrar uma barriga desprogramada teve apenas como base a ideia pré-concebida de uma barriga nessa condição. No entanto, há até “mães fit” com abdominais definidos e barrigas igualmente “desprogramadas”.

A crença geral é que o excesso de gordura se acumula nessa região e, embora em parte seja verdade, nem tudo é culpa da alimentação, por si só. Essa crença geralmente leva algumas pessoas a fazer dietas muito restritivas ou a tentar seguir treinos extenuantes. Muitas vezes fazem-se dietas injustificadas, centenas de abdominais por dia, milhares de quilómetros de corrida… mas a barriga continua lá.

O que é, afinal, uma barriga “desprogramada”?

É a condição na qual a “cintura abdominal natural”, o músculo conhecido como transverso abdominal, deixa de exercer a função de “cinta”, impedindo a pessoa de ativar essa musculatura de suporte no seu dia-a-dia. Por sua vez, os aumentos de pressão intra-abdominal observados em actividades como, por exemplo, tossir, espirrar, rir, levantar objetos pesados, ou fazer treino de alto impacto podem desencadear problemas como hérnias abdominais, discais, incontinência urinária entre muitos outros, quando as paredes musculares da cavidade abdominal se encontram desprogramadas para a sua função de suporte. Na realidade, todas estas situações podem ser lesivas se não tivermos uma musculatura competente e que desempenhe eficazmente o seu papel.

Quais são as causas desta desprogramação? Regra geral, as pessoas desconhecem o seu corpo e, em particular, as causas que levam a cintura abdominal a desprogramar-se. Esta condição pode acontecer por diversas razões:

Sedentarismo – A cintura abdominal é ativada pelo movimento. Em caso de desequilíbrio, é o grupo muscular que é ativado primeiro. Se se passa muito tempo sentado ou deitado, a cintura abdominal fica preguiçosa e interpreta que a sua função não é necessária, começando a desprogramar-se.

Má postura – A adopção de más posturas pode inactivar os músculos que contribuem para nos mantermos numa posição ereta, levando o corpo a fazer compensações e relaxando a musculatura abdominal, desprogramando-a.

Gravidez – O parto, seja eutócico ou distócico, pode deixar sequelas – visíveis ou não e que se manifestam de imediato ou não – e que devem ser, antes de mais, analisadas por um Fisioterapeuta Especialista em Reabilitação Pélvica e Uroginecológica. Este é um dos profissionais de saúde que qualquer recém-mamã deveria consultar, dado que dispõem de uma bateria de testes que podem ajudar a despistar e até prevenir futuros problemas de saúde associados à gravidez e ao parto. Por exemplo, uma cicatriz de cesariana com aderência à parede da musculatura abdominal, fáscia uterina e intestinal pode provocar uma obstipação crónica. A barriga pode ainda apresentar sinais de desprogramação abdominal, diminuição do tónus abdominal, sinais de diminuição de colagéneo (pele seca) e ptsore umbilical (queda do umbigo).

Diafragma tenso – Embora seja desconhecido por muitas pessoas, é o principal músculo da respiração. Se o diafragma estiver tenso, os órgãos internos são pressionados para baixo, resultando em possíveis problemas no assoalho pélvico, e para fora, criando distensão abdominal. Essa tensão empurra os órgãos internos em direção à cintura abdominal, mantendo-a constantemente para fora, criando espaço para o diafragma. O diafragma geralmente fica tenso devido a bloqueios causados ​​por stresse ou causas emocionais.

Edema abdominal – Este pode ser causado por diversas razões, como stress, factores hormonais, má alimentação, alergias alimentares, consumo excessivo de refrigerantes, etc.

Idade e genética – Apesar de a genética poder variar de pessoa para pessoa, o tecido conjuntivo não é tão consistente na casa dos 50 ou 60 anos, quanto era aos 20. Com o avançar da idade, ocorre alguma degeneração.

Atividades e hábitos – Atividades e hábitos como saltar, correr, apertar / empurrar uma carga, tosse contínua, etc. influenciam na desprogramação da cintura abdominal, pois constituem hiperpressões sofridas tanto no assoalho pélvico quanto na cintura abdominal.

Muito além da estética…

Pode parecer incrível de se acreditar, mas uma barriga desprogramada na sua função de suporte pode trazer inúmeros problemas para a saúde, incluindo até disfunções da articulação temporomandibular (DTM). Isso acontece, porque o corpo arranja forma de ir buscar força a outro lado e assim continuar a funcionar. Pode ir buscar força precisamente ao maxilar, que começa a andar em tensão, camuflando a baixa resistência muscular.

Ok, mas o que posso fazer para “reprogramar” a minha barriga?

Isso pode variar de pessoa para pessoa. No caso das mulheres, sobretudo nas que foram mães, é fundamental começarem por consultar um Fisioterapeuta Especialista em Reabilitação Pélvica e Uroginecológica e poderá haver um longo trabalho a ser feito nesse âmbito. Deverá ser este profissional a definir quando a mulher está preparada para fazer outro tipo de exercícios, além dos realizados nos tratamentos de Fisioterapia, como sejam o Método Pilates e o Low Pressure Fitness.

Na população, em geral, é essencial adotar um estilo de vida saudável, com uma alimentação equilibrada e a integração da prática de exercício físico que, por sua vez, irá proporcionar uma melhor consciência corporal e o reforço muscular. A prática de Pilates e de Low Pressure Fitness são fortemente aconselhadas, na medida em que ambas as modalidades têm grande ênfase na componente respiratória e postural. Enquanto o Método Pilates, com a sua respiração característica, alinhamento postural e exercícios específicos contribuem para a activação e reforço da musculatura abdominal profunda, o Low Pressure Fitness com os seus exercícios posturais e respiratórios que diminuem a pressão intra‐abdominal, vão ajudar a gerir melhor as pressões e a restabelecer a musculatura da cavidade abdominal, conferindo-lhe um tónus muscular eficiente e capaz de suportar as várias situações que vão sucedendo no nosso dia‐a‐dia sem causar lesão. Para além disso, irá prevenir várias disfunções do pavimento pélvico, como a incontinência urinária, ao aumentar o tónus muscular nesta zona.

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